Você faz um exame de rotina e encontra uma glicemia de jejum de 108 mg/dL. Ou seja, a concentração de glicose, o açúcar presente no sangue, está acima da faixa considerada normal. Embora você se sinta bem, o resultado merece atenção: ele está na faixa de pré-diabetes e precisa ser interpretado em avaliação médica.
Isso não significa, porém, que o diabetes seja inevitável. Pelo contrário, identificar essa alteração abre uma oportunidade para cuidar da alimentação, do movimento e da saúde metabólica, que envolve o modo como o organismo utiliza e armazena energia. A seguir, entenda os exames e o que pode ajudar.
O que é pré-diabetes?
Pré-diabetes é uma condição em que a glicose no sangue está acima do normal, mas abaixo dos critérios de diabetes. Portanto, não deve ser ignorado, mesmo quando aparece em alguém sem queixas e com disposição para as atividades diárias.
Para entender o processo, vale conhecer a insulina, hormônio produzido pelo pâncreas que ajuda a glicose a entrar nas células e ser utilizada como energia. Quando o corpo responde menos à sua ação, ocorre a resistência à insulina. Assim, o pâncreas precisa trabalhar mais para manter a glicose sob controle.
Com o tempo, essa compensação pode se tornar insuficiente, e a glicose aumenta. Ainda assim, a evolução varia: segundo dados citados pela Sociedade Brasileira de Diabetes, em 3 a 5 anos, cerca de 25% das pessoas com pré-diabetes progridem para diabetes tipo 2, 50% permanecem nessa condição e 25% voltam ao normal. Esses números descrevem grupos, não determinam o futuro de uma pessoa.
Quais exames identificam o pré-diabetes?
Segundo a Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) 2025, a avaliação utiliza glicemia de jejum, hemoglobina glicada ou teste oral de tolerância à glicose. Para facilitar a leitura, veja o que cada exame mede:
- Glicemia de jejum: mede a concentração de glicose no sangue após o período de jejum orientado para a coleta.
- Hemoglobina glicada (HbA1c): mede a proporção de hemoglobina, proteína dos glóbulos vermelhos, ligada à glicose, refletindo o comportamento do açúcar no sangue nos últimos meses.
- Teste oral de tolerância à glicose (TOTG): avalia como o organismo responde à ingestão de uma solução de glicose; na tabela, considera-se a medida após 2 horas.
Assim, os valores abaixo ajudam a compreender o laudo. A unidade mg/dL significa miligramas por decilitro e expressa a concentração de glicose no sangue.
| Exame | Normal | Pré-diabetes | Diabetes |
|---|---|---|---|
| Glicemia de jejum | Abaixo de 100 mg/dL | 100 a 125 mg/dL | 126 mg/dL ou mais |
| TOTG após 2 horas | Abaixo de 140 mg/dL | 140 a 199 mg/dL | 200 mg/dL ou mais |
| Hemoglobina glicada (HbA1c) | Abaixo de 5,7% | 5,7% a 6,4% | 6,5% ou mais |
Portanto, uma glicemia de jejum 100 já está no limite inicial da faixa de pré-diabetes. Da mesma forma, uma hemoglobina glicada 5,7% merece avaliação, mesmo que esteja próxima do valor de referência.
Entretanto, a tabela não substitui a interpretação clínica nem define, sozinha, a necessidade de confirmação. Além disso, a SBD 2025 recomenda o uso combinado de glicemia de jejum e HbA1c no rastreamento, pois os exames oferecem informações complementares.
Pré-diabetes: sintomas e sinais que merecem atenção
Na maioria das vezes, o pré-diabetes não provoca sintomas perceptíveis. Por isso, esperar sentir alguma coisa pode atrasar sua identificação, e estar se sentindo bem não garante que os exames estejam normais.
Por outro lado, sede excessiva, aumento da vontade de urinar, perda de peso sem explicação ou visão embaçada precisam de avaliação médica. Esses sinais podem acompanhar alterações mais importantes da glicose e não devem ser atribuídos automaticamente ao pré-diabetes.
Além disso, gordura abdominal e alterações metabólicas associadas podem indicar maior risco, embora não confirmem o diagnóstico. Nesse contexto, entender a síndrome metabólica, conjunto de alterações como aumento da cintura, da pressão e da glicose, ajuda a olhar além de um resultado isolado.
Quem precisa ficar mais atento?
Segundo a SBD 2025, o rastreamento de adultos passou a ser recomendado a partir dos 35 anos. No entanto, fatores de risco podem justificar uma avaliação antes dessa idade, conforme a história de cada pessoa.
Além da idade, merecem atenção:
- Histórico familiar de diabetes.
- Acúmulo de gordura abdominal e sedentarismo.
- Sono ruim ou pouco reparador.
- Histórico de diabetes gestacional, identificado durante a gravidez.
- Síndrome dos ovários policísticos, condição hormonal que pode afetar os ciclos menstruais e o metabolismo.
Em especial, a gordura visceral, localizada ao redor dos órgãos dentro do abdômen, está relacionada à resistência à insulina. Ainda assim, o peso corporal sozinho não permite confirmar nem excluir pré-diabetes.
Como reverter pré-diabetes com um plano possível
Reverter pré-diabetes significa fazer os níveis de glicose voltarem à faixa normal. Embora isso seja possível, não existe garantia individual, e manter o acompanhamento continua sendo importante mesmo após a melhora dos exames.
Nos estudos clássicos Diabetes Prevention Program, dos Estados Unidos, e estudo finlandês DPS, intervenções no estilo de vida reduziram a progressão para diabetes em torno de 58%. Essas estratégias envolveram perda de 5 a 7% do peso e cerca de 150 minutos de atividade física por semana. Portanto, o resultado se refere à redução do risco em grupos estudados, não a uma promessa pessoal.
Organize a alimentação
Para começar, vale observar a rotina alimentar e construir refeições com verduras, legumes, feijões, fontes de proteína e alimentos menos processados. Além disso, reduzir bebidas açucaradas e ajustar porções costuma ser mais sustentável do que alternar restrições intensas e períodos de abandono.
Em vez de tratar todo carboidrato como proibido, o plano precisa considerar qualidade, quantidade e combinação dos alimentos. Assim, preferências, horários, orçamento e relação com a comida entram na decisão.
Inclua movimento e cuide do peso quando indicado
Se você está sedentário, começar com atividades compatíveis com sua condição física ajuda a construir continuidade. Depois, o plano pode evoluir conforme a tolerância e a orientação recebida.
Quando existe excesso de peso, uma redução sustentada pode favorecer a melhora da glicose. Porém, a meta deve ser individualizada, levando em conta saúde, capacidade funcional e possibilidades reais.
Cuide do sono e acompanhe a evolução
Além da alimentação e do movimento, o sono merece espaço na consulta. Afinal, noites ruins podem dificultar a organização da rotina e a manutenção dos cuidados.
Por fim, repetir exames conforme orientação permite verificar a resposta e ajustar o plano. Dessa forma, o acompanhamento de saúde metabólica em Campinas pode integrar os resultados à história clínica e às dificuldades do cotidiano.
Pré-diabetes: o que fazer e quando considerar medicação?
Ao receber um resultado alterado, o primeiro passo é levar os exames à consulta, junto com resultados anteriores e informações sobre sua saúde. Em seguida, a avaliação define se há necessidade de confirmação, investigação complementar e mudanças no cuidado.
Além das medidas de estilo de vida, a SBD 2025 contempla tratamento farmacológico do pré-diabetes, incluindo metformina em casos selecionados. Trata-se de um medicamento que ajuda no controle da glicose, mas sua indicação depende da avaliação individual. Portanto, nada deve começar sem avaliação médica.
Perguntas frequentes
Pré-diabetes tem cura?
É possível voltar à faixa normal de glicose. Porém, "cura" pode sugerir que o risco desapareceu definitivamente: manter os cuidados e o acompanhamento continua necessário.
Pré-diabetes dá sintomas?
Geralmente, não apresenta sintomas perceptíveis. Por isso, os exames e a avaliação dos fatores de risco são importantes para identificar a alteração.
Glicemia de jejum de 100 já é pré-diabetes?
Segundo a SBD 2025, esse valor está no início da faixa de pré-diabetes. Entretanto, a interpretação deve considerar os demais exames e o contexto clínico.
Todo mundo com pré-diabetes precisa de remédio?
Não. A medicação pode ser considerada em situações selecionadas; portanto, a decisão depende da avaliação médica e acompanha o cuidado com o estilo de vida.
Se seus exames trouxeram essa dúvida, converse com a Dra. Juliana Xavier Munhoz no consultório em Campinas. Assim, vocês podem entender os resultados e construir um plano de cuidado adequado à sua saúde e à sua rotina.
Fontes citadas
- Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) 2025: critérios diagnósticos, rastreamento e tratamento do pré-diabetes.
- Sociedade Brasileira de Diabetes: dados sobre a evolução natural do pré-diabetes.
- Diabetes Prevention Program, dos Estados Unidos: prevenção do diabetes com mudanças no estilo de vida.
- Estudo finlandês DPS, Diabetes Prevention Study: prevenção do diabetes com mudanças no estilo de vida.


