Em um exame de rotina, pode acontecer de a glicemia estar um pouco elevada, os triglicerídeos também, a pressão arterial ficar no limite e a medida da cintura aumentar ao longo dos anos. Isoladamente, cada resultado pode parecer pouco preocupante. No entanto, quando essas alterações aparecem juntas, elas podem revelar uma conexão importante para a saúde metabólica e cardiovascular: a síndrome metabólica.
O que é síndrome metabólica?
A síndrome metabólica é um conjunto de fatores de risco que tendem a ocorrer ao mesmo tempo e que estão associados a maior risco cardiovascular. Ou seja, não se trata de uma única doença, mas da combinação de alterações relacionadas ao metabolismo, que é o conjunto de processos pelos quais o organismo transforma e utiliza energia.
Entre os componentes estão o acúmulo de gordura na região abdominal, alterações nos níveis de gorduras no sangue, pressão arterial elevada e glicemia aumentada. Além disso, essas condições podem compartilhar mecanismos em comum, como a resistência à insulina, assunto abordado em artigo já publicado neste blog.
A insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas que ajuda a glicose, o açúcar presente no sangue, a entrar nas células para ser usada como energia. Quando o organismo passa a responder menos a esse hormônio, ocorre a resistência à insulina. Dessa forma, podem surgir alterações na glicemia, nos triglicerídeos e no acúmulo de gordura abdominal.
Por que esses fatores de risco se conectam?
A síndrome metabólica ajuda a enxergar o quadro de forma integrada. Isso porque os seus componentes não costumam ser achados independentes em um exame, embora cada um também mereça avaliação própria.
A gordura abdominal, por exemplo, não é apenas uma questão de medida corporal. O tecido adiposo, especialmente o que se acumula ao redor dos órgãos internos, chamado de gordura visceral, pode participar de processos inflamatórios e metabólicos. Por isso, a circunferência da cintura é um dos critérios usados na avaliação da síndrome metabólica.
Ao mesmo tempo, a resistência à insulina pode favorecer aumento da glicemia e dos triglicerídeos, que são um tipo de gordura circulante no sangue. Além disso, ela pode estar associada à redução do HDL-colesterol, conhecido como colesterol HDL, uma lipoproteína que participa do transporte do colesterol no organismo.
A pressão arterial também se integra a esse cenário. A pressão é a força que o sangue exerce contra as paredes das artérias, os vasos que levam sangue do coração aos tecidos. Quando ela permanece elevada, o sistema cardiovascular fica mais exposto a sobrecarga. Dessa maneira, olhar para todos os marcadores em conjunto contribui para uma avaliação mais completa do risco.
Quais são os 5 critérios diagnósticos?
A I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica adotou os critérios do NCEP-ATP III, sigla para National Cholesterol Education Program Adult Treatment Panel III, por sua simplicidade e praticidade clínica. O diagnóstico de síndrome metabólica é considerado quando estão presentes pelo menos 3 dos 5 critérios abaixo.
| Critério | Valor de corte |
| Obesidade abdominal, avaliada pela circunferência da cintura | Homens: ≥102 cm. Mulheres: ≥88 cm. |
| Triglicerídeos séricos | ≥150 mg/dL, ou uso de medicação para tratar essa alteração. |
| HDL-colesterol | Homens: <40 mg/dL. Mulheres: <50 mg/dL, ou uso de medicação. |
| Pressão arterial | ≥130x85 mmHg, ou uso de anti-hipertensivo. |
| Glicemia de jejum | ≥100 mg/dL, ou diagnóstico prévio de diabetes. |
É importante observar que esses critérios servem para identificar um padrão de risco. Portanto, eles não substituem uma avaliação médica individual, que considera sintomas, histórico familiar, hábitos de vida, outros exames e condições de saúde já existentes.
O que os números mostram sobre a síndrome metabólica no Brasil?
A síndrome metabólica é frequente na população adulta. Um estudo brasileiro de base populacional encontrou prevalência de 38,4%, com proporção maior entre mulheres, de 41,8%.
Nesse estudo, os componentes mais prevalentes foram a circunferência da cintura elevada, presente em 65,5% dos participantes, e o HDL-colesterol baixo, observado em 49,4%. Assim, acompanhar esses indicadores pode ser relevante mesmo quando a pessoa se sente bem e não percebe sintomas.
Além disso, um estudo de base populacional realizado em Vitória, no Espírito Santo, mostrou que a prevalência aumenta com a idade: foi de 15,8% entre pessoas de 25 a 34 anos e chegou a 48,3% entre 55 e 64 anos. Ainda assim, o rastreamento não deve depender apenas da idade, pois histórico familiar, tabagismo, diabetes tipo 2, LDL elevado e outros fatores também influenciam o risco cardiovascular.
Por que rastrear antes que os problemas avancem?
Rastrear significa avaliar fatores de risco mesmo antes de sintomas aparecerem. Isso é relevante porque glicemia aumentada, pressão arterial elevada e alterações no colesterol ou nos triglicerídeos podem evoluir de forma silenciosa.
A identificação precoce da síndrome metabólica permite discutir estratégias para melhorar marcadores metabólicos e reduzir fatores de risco modificáveis. Quanto mais cedo essa avaliação acontece, maior pode ser o potencial de benefício. No entanto, as condutas devem ser definidas de forma individualizada, após consulta e avaliação médica.
Segundo a I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica, a presença da síndrome está associada a aumento de cerca de 2,5 vezes na mortalidade cardiovascular. Ainda assim, esse dado não determina o futuro de uma pessoa, pois o risco varia conforme sexo, idade, presença de diabetes tipo 2, LDL elevado, tabagismo, histórico familiar de doença coronariana precoce e outros aspectos clínicos.
Como a avaliação médica pode ajudar?
A consulta permite reunir informações que um resultado isolado não explica. Além das medidas corporais, da pressão arterial e dos exames de sangue, é importante avaliar rotina, sono, alimentação, atividade física, uso de medicamentos, antecedentes familiares e outras condições de saúde.
Dessa forma, a avaliação pode ajudar a identificar prioridades e a definir um plano de cuidado adequado ao contexto de cada pessoa. Quando há indicação de tratamento ou medicação, a decisão deve ser feita com orientação médica, nunca por conta própria.
Perguntas frequentes
Síndrome metabólica é a mesma coisa que diabetes?
Não. A síndrome metabólica é um conjunto de fatores de risco, enquanto o diabetes é uma condição caracterizada por alterações persistentes da glicose no sangue. No entanto, glicemia de jejum elevada e diabetes tipo 2 fazem parte da avaliação metabólica e podem estar relacionados.
É possível ter síndrome metabólica sem sentir nada?
Sim. Muitas alterações envolvidas, como pressão arterial elevada, glicemia aumentada e mudanças nos níveis de colesterol e triglicerídeos, podem não causar sintomas. Por isso, consultas e exames de rotina são importantes.
Quem deve investigar síndrome metabólica?
Pessoas com aumento da circunferência abdominal, pressão arterial alterada, glicemia elevada, mudanças no colesterol ou triglicerídeos, histórico familiar de doença cardiovascular precoce ou diabetes podem se beneficiar de uma avaliação médica. Além disso, a investigação pode ser considerada conforme idade, hábitos de vida e histórico clínico individual.
Entender a síndrome metabólica é uma forma de conectar informações que, à primeira vista, parecem separadas. Por isso, acompanhar os fatores de risco e conversar sobre eles em consulta pode favorecer decisões mais bem informadas para a saúde ao longo do tempo.
Fontes citadas
- I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica.
- NCEP-ATP III, National Cholesterol Education Program Adult Treatment Panel III.
- Estudo brasileiro de base populacional sobre prevalência de síndrome metabólica em adultos.
- Estudo de base populacional realizado em Vitória, Espírito Santo, sobre prevalência de síndrome metabólica por faixa etária.


